Moda é arte?

8 de março de 2013

Nenhum artista quer demonstrar coisa alguma. Até as verdades podem ser demonstradas. (…) O que a arte realmente espelha é o espectador, não a vida.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte revela que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está em consonância consigo mesmo.
Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada.
Toda a arte é completamente inútil.” – Oscar Wilde em “O retrato de Dorian Gray”

Vamos pensar um pouco sobre a Arte: ela tem no artista seu centro, e é nele que se inicia e se encerra o processo criativo da obra. Mesmo um artista que tenha uma equipe que execute a obra pra ele, e que tenha uma projetação por trás da obra, no final ele é quem dá a aprovação de acordo com sua visão pessoal. De um ponto de vista prático e mercadológico a Arte é inútil, pois não exerce influência direta na vida da população. Porém essa inutilidade é contestada a partir do momento que falamos da indústria criativa.

A Moda, assim como o Design, o Cinema e a Arquitetura por exemplo, é uma indústria criativa em que são produzidos não somente objetos, mas também criam-se símbolos, obtendo assim objetos portadores de significado. Mesmo contendo significados, os produtos dessas indústrias precisam ter uma função e suprir uma necessidade do público, seja ela extremamente fundamental ou puramente estética e emocional. Seja esse público apenas as 200 compradoras regulares da alta-costura ou 200 milhões de compradores de uma fast-fashion, a área criativa e artística ligada à Moda está subordinada à indústria visando a comercialização de suas criações. Para isso, há diversos estudos de tendências e de público-alvo, para que sejam supridas as expectativas dos consumidores e dos investidores com eficácia.

Pego como exemplo o caso do Nicolas Ghesquière, ex-diretor criativo da Balenciaga. Responsável por alguns dos maiores ícones da moda recente (ele que trouxe o lenço palestino de volta às passarelas), ele deixou a casa espanhola em meio a várias especulações, mas uma das principais foi que ele e o setor financeiro da PPR (Pinault-Printemps-Redoute, donos da Balenciaga) não estavam se entendendo. Segundo Cathy Horyn, jornalista de moda do New York Times, dentre os motivos da saída de Ghesquière está o fato de que algumas áreas da marca estavam cada vez mais comerciais, coisa que ia contra os anseios dele, que sempre foi um estilista com uma veia artística muito forte (matéria completa aqui, em inglês). Entenderam um pouco como as coisas funcionam no mundo das modas?

Há uma frase de Chanel que diz: “Não pode existir moda se ela não puder ser usada na rua”. Indo mais além, uma roupa que não tem uma finalidade de existir não é Moda, é roupa pura e simplesmente. Mas e os desfiles conceituais, Ianarã? Ninguém usa aquilo na rua! Sim, e seria bem estranho alguém usando um Iris Van Herpen pra comprar pão, né? Porém, os desfiles conceituais tem por objetivo passar as ideias do estilista de forma artística e despertar o interesse das editoras de moda de usar as peças nas revistas e sites (e assim fazer o marketing indireto da marca), além de aflorar no consumidor de moda a curiosidade sobre as peças que estarão disponíveis nas lojas, as peças “possíveis” e que de fato serão usadas nas ruas.

Dito tudo isso, concluo meu pensamento com uma simples frase: Moda não é arte. Uma transita no campo da outra, por exemplo quando as roupas são inspiradas em obras artísticas ou quando exposições de grandes estilistas são em museus ou espaços dedicados às artes, mas ainda há uma linha tênue que as separa. Porém, como não sou dono da verdade absoluta, quero saber a opinião de vocês: concordam comigo ou acham que moda é arte?

By Ianarã Bernardino

Apaixonado por moda, música e tudo que é novo e interessante. Diretor Criativo, Stylist, & Designer.

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