O Corpo Ostentação

A nascimento da Moda está intimamente ligado às elites. Ela nasceu a partir da dinâmica de ostentação de riquezas que foi criada pela burguesia perante à aristocracia, e teve inicio nos primórdios do capitalismo a partir da Renascença. Isso quer dizer que o princípio fundador da Moda é a ostentação, que é um tipo de afirmação forçada, baseado na luta por posição econômica, status social ou inclusão cultural por meio de elementos visíveis e de fácil reconhecimento por grande parte da sociedade. 
Com o passar do tempo os conflitos tornaram-se menos ostensivos e mais ideológicos. Onde antes havia a roupa mais ricamente adornada como sinal de importância, passou-se a valorizar a exclusividade e a criatividade em seu desenvolvimento. Além disso, outros fatores entraram no jogo de afirmações: em adição às vestes, objetos e acessórios, elementos como experiências turísticas, práticas culinárias, intelectuais e linguísticas tornaram-se valores de diferenciação. 
Maria Antonieta x Elie Saab Couture Verão 2014 
O século XX trouxe, dentre outras coisas, a desconstrução e massificação de muitos desses signos de valor. No campo das vestes, a maior revolução foi a criação do prêt-à-porter na primeira metade do século, que fez algo até então inédito: popularizou as criações e tendências, tornando mais rápido o acesso e o consumo pelas massas. As novas tecnologias também contribuíram bastante, já que não era mais preciso viajar até a Europa para saber o que se usava por lá, bastava ligar a televisão e, anos depois, acessar um site na internet.
Neste início de século XXI as pessoas querem consumir mais e melhor, e o aumento do poder de compra ocasionou a popularização do luxo: antes a bolsa assinada pela grife francesa era privilégio de poucos, hoje é tão comum que foi necessário aumentar os preços para frear sua banalização e reafirmar sua exclusividade, como explica essa matéria do Glamouratis (em espanhol). Por isso, outros elementos ganham força como forma de diferenciação. Um destes, e que tem se tornado uma epidemia, é o que eu chamo de corpo ostentação. Não é difícil encontrar exemplos, ele está presente em vários lugares. Pode ser na mesa ao lado da sua no trabalho, na timeline do seu Facebook ou Instagram e até mesmo na sua novela preferida. Hoje, a barriga chapada é a nova Chanel Classic Flap, o bíceps braquial perfeitamente esculpido por horas de exercícios é o novo Rolex
Matelassado ou trincado? 
Não é a toa que as academias andam lotadas, os blogs com temática fitness ganham cada vez mais popularidade e conversas sobre exercícios e suplementos são cada vez mais comuns. Sob o mote da busca pela vida saudável, não é nada incomum encontrar pessoas obcecadas pelo corpo perfeito, vivendo a base de frangos, batatas-doce e shakes proteicos e distribuindo hashtags com os dizeres “no pain, no gain” (sem dor, sem ganhos) por ai. O objetivo é sempre o mesmo: estar com o corpo em dia para poder mostrá-lo sem medo do julgamento alheio nas festas e/ou redes sociais. E não tem problema se o corpo ainda não está cem por cento, sempre há o nosso querido Photoshop ou um cirurgião plástico logo ali na esquina para aperfeiçoar a imagem de quem vive em busca do corpo perfeito. 
Outro rumo bastante comum e perigoso que essa busca pelo corpo-ostentação pode tomar é uma das mais comentadas no mundinho das modas: o da magreza excessiva. Quantas meninas você conhece que são altas, magras e possuem o IMC menor do que 18,5? Pois é, não muitas. Mas essa é uma imagem constantemente associada ao luxo, ao poder e ao sucesso, deixando a mensagem para pessoas do mundo inteiro de que você precisa do corpo perfeito para ser bem sucedido. E, por mais que essa seja uma imagem comumente associada ao universo feminino, é crescente o número de rapazes que também querem usar numerações de roupa cada vez menores, segundo essa matéria do jornal O Tempo
Projeto Vênus, da italiana Anna Utopia Giordano, que questiona os padrões de beleza atuais através de intervenções em quadros antigos (mais nesse link

Uma vez que corpo perfeito não existe, o correto seria a busca pelo corpo saudável. Sei por experiência própria o quanto podemos nos enganar achando que aquelas três horas diárias de exercícios associados a porções homeopáticas e restritivas de comida são super saudáveis. E talvez o pior disso tudo é seguir cegamente os padrões, sem se questionar que talvez sua genética não te favoreça a ter um corpo extremamente musculoso ou magro. Mudar para se sentir melhor é válido, mas mudar para se encaixar em um padrão é um tanto quanto doentio. Será que precisamos de um exército de homens e mulheres sarados? Onde fica a beleza da diversidade no meio disso tudo? Espero que ninguém perceba tarde demais que nós valemos muito mais do que uma bolsa ou sapato de grife, uma barriga tanquinho, uma coxa definida ou um manequim 36. 

Fotos: Reprodução

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Ianarã Bernardino
Ataco de Diretor Criativo, Designer & DJ. Também ataco de astrólogo (pros amigos) e de master chef (quando tô de bom humor). :)

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