Sobre falsas democracias, fantasmas e azul cerúleo

Dizem que a cada dia que passa a Moda fica mais democrática. Será? Por definição, Democracia é a forma de governo em que a soberania é exercida pelo povo. (…) Neste sistema político, o poder é exercido pelo povo através do sufrágio universal. É um regime de governo em que todas as importantes decisões políticas estão com o povo, que elegem seus representantes por meio do voto. (Fonte

Ok, agora que você já sabe o que a palavra significa, eu te pergunto: Você acha realmente que a Moda é uma democracia? Não se enganem, a Moda (assim como a Política) é uma ditadura travestida de democracia. Ela te dá opções e, dentre elas, você seleciona o que melhor se encaixa para você. Mas não ouse ir além do horizonte. A quantidade de alternativas atuais é expressivamente maior do que no século passado, porém as limitações ainda existem. E o pior: elas são tão sutis que são quase imperceptíveis. São como fantasmas: estão presentes, mas ninguém consegue vê-las. E não pensem que isso é errado ou nocivo. Nós precisamos de tiranos, precisamos que delimitem nossas possibilidades, mesmo que em tese odiemos isso. Foi isso que Miranda Priestly no alto de sua simpatia explicou para sua assistente nessa cena de O Diabo Veste Prada:

“Estas “coisas”? Oh, entendi. Você acha que isso não tem nada a ver com você. Você vai até o seu armário e escolhe, sei lá, este suéter azul amassado porque está tentando dizer ao mundo que se leva muito a sério pra se importar com o que você vai vestir. Mas o que você não sabe é que esse suéter não é apenas azul. Não é turquesa, não é lápis-lazúli, é cerúleo. E você é cega para o fato de que em 2002 Oscar de La Renta fez uma coleção de vestidos cerúleo. E eu acho que foi Yves Saint Laurent, não foi? Que criou jaquetas militares em cerúleo. Eu acho que precisamos de uma jaqueta aqui. E então o cerúleo rapidamente apareceu nas coleções de oito estilistas diferentes. E logo foi filtrado pelas lojas de departamentos e desceu mais ainda para uma dessas lojas casuais de esquina onde você garimpou sua peça. No entanto esse azul representa milhões de dólares e incontáveis empregos. E é meio engraçado como você acha que fez uma escolha que te exclui da indústria da moda quando, na verdade, você está usando um suéter que foi selecionado para você, pelas pessoas nesta sala, dentre uma pilha de “coisas”.”

E qual a melhor forma de expandir os limites de poder da Moda senão indo contra ela? As anti-Modas são um exemplo claro disso. Como elas nasceriam se não houvesse a Moda para dizer o que fazer e ser contestada? Não existe anti-Moda sem as regras claras das modas. E depois de popularizado o que era contra acaba tornando-se o que combatia inicialmente: a própria Moda. No final das contas, o punk do subúrbio dependia tanto das passarelas e tendências quanto a dondoca grifada da cabeça aos pés.
E o mais irônico nisso tudo é perceber que, com o passar do tempo, quanto mais “liberdade” e possibilidades conseguimos, mais massificados ficamos. O que em tese deveria nos tornar cada vez mais únicos está nos tornando cada vez mais iguais. São tantas as opções que preferimos ir no seguro, no confortável, no que está se usando muito. E qual seria o segredo para ir além, para encontrar sua própria voz nesse mar de seres clonados, dignos de ficções científicas? Exorcizando essas regras travestidas de fantasmas, claro! Como diz Florence Welch em Shake It Out: “It’s hard to dance with a devil on your back, so shake him off!” (É difícil dançar com um demônio nas costas, então sacuda-o!)

Para se aprofundar um pouco mais, recomendo muito a leitura do texto O grande segredo para se vestir bem, de Gregory Martins, lá no Trend Coffee. Arriscaria até a dizer que o texto dele complementa o meu – ou seria o meu que complementa o dele? De qualquer modo, nunca é tarde para começar a jornada em busca do seu eu fashion

Foto: Reprodução

Post Author
Ianarã Bernardino
Ataco de Diretor Criativo, Designer & DJ. Também ataco de astrólogo (pros amigos) e de master chef (quando tô de bom humor). :)

Comments 2

  1. Cynthia Germanna
    abr 3, 2014 Reply

    Sempre bom saber que ainda existe senso crítico nos blogs de moda hoje em dia. Esse post é super coerente e pontual, principalmente para mim que estou pensando em mudar o rumo do meu blog. Eu olho esse batalhão de meninas deslumbradas, elogiando tudo forçadamente, querendo publicidade, anunciantes sem nem ao menos saberem o que estão vendendo algo deprimente. Sinto que as vezes estou no lugar errado. Ler um texto como o seu, muito bem construído por sinal, me faz ter esperança de vida inteligente na blogosfera. Parabéns pelo post!

    ps: precisamos bater aqueles nossos papos "cabeças" novamente. Ando muito desenganada com os blogs 😉

  2. Ianarã Bernardino
    abr 4, 2014 Reply

    Nossa, não tenho nem palavras para expressar a gratidão que sinto pelo seu comentário. Ando bastante desiludido com blogs de moda também, tanto que estou expandindo meus horizontes para novos tipos de blog. Vamos bater esse "papo cabeça" sim, espero que você encontre um outro lado da blogosfera além do "look deuso".

    Mais uma vez obrigado pelo comentário! =D

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