Amazonas por Ianarã Bernardino

22 de fevereiro de 2016

Esse é, talvez, um dos posts mais longos que eu já escrevi. Pode parecer bobo, mas passei mais de um ano me questionando sobre postar ou não esse material aqui. Escrevi meu TCC durante o ano de 2014 e, perfeccionista como sou, fiquei obcecado em fazer um trabalho digno de um dez. Porém, depois de ser avaliado pela banca, tirei um fuckin’ nove. Sim, um nove. NOVE. #MeuMundoCaiu. Dramático, eu? Magina! Agora que a estação que eu trabalhei na época (verão 2015/16) está no fim e que eu superei esse nove, resolvi compartilhar esse trabalho aqui.

Como sempre fui obcecado apaixonado por moda, nada mais justo que eu desenvolvesse uma coleção. Nela eu queria trabalhar duas vertentes que me interessam bastante: a cultura brasileira, em especial a do norte do país (onde eu nasci) e as questões de gênero, que acabaram sendo deixadas um pouco de lado no processo (por pressão conselho da minha orientadora).

A princípio seria uma coleção unissex, mas foquei no público masculino por um simples motivo: moda masculina atualmente não me representa, então queria fazer algo que me agradasse e agradasse ao meu cliente. Além disso, esse é um dos segmentos que mais cresce dentro da moda. Segundo pesquisa da consultoria britânica Market­Line (nesse link), o mercado de moda masculina no Brasil cresceu 7% no ano de 2012 e fechou o ano movimentando US$ 17,1 bilhões. A estimativa para 2017 é que esse valor suba para US$ 23,6 bilhões, alta de 38% em relação a 2012. Porém, como mostra o gráfico abaixo, a moda masculina no Brasil ainda não é tão valorizada. Considerando apenas os desfiles do São Paulo Fashion Week e do Fashion Rio da temporada de Verão 2014/2015, das 49 apresentações apenas 3 eram exclusivamente masculinas. Desfiles mistos foram 11, ou seja, muito menos da metade.

gráfico-desfiles-spfw-fashion-rio
Gráfico do total de desfiles do SPFW e do Fashion Rio Verão 2014/15

Fora que, como mostraram os resultados de uma pesquisa feita pelo site TrendCoffee (que saiu do ar 🙁 ) em junho de 2014, 72% dos entrevistados gostariam de experimentar outros itens de moda além dos encontrados no mercado, ou seja, há interesse do homem por roupas e acessórios com design diferente e inovador, mesmo que 98% dos entrevistados ainda notem a existência de algum tipo de preconceito quanto ao que se veste no Brasil. Ou seja, aquela velha lenda de que homem não deseja moda está mais do que provada que é mentira, né?

Depois dessa pesquisa inicial, fiz outra mais focada no meu público: desenvolvi um questionário com 14 questões e divulguei na internet para que os homens respondessem. 79% dos homens que responderam tinham entre 20 e 30 anos, então foquei em um produto voltado para esse público (o qual eu faço parte). São homens que ficam bastante tempo conectados, mas também gostam de encontrar os amigos, ler e cozinhar. Gostam de sair para bares, restaurantes, shoppings e cinema, além de se considerarem inteligentes, amigáveis, honestos e felizes. Apesar de não se considerarem muito vaidosos, sempre pensam no que vão vestir e usariam peças mais ousadas em ocasiões especiais. Grande parte deles compra as próprias roupas sozinho ou, no máximo, com a ajuda de alguém. Os fatores que mais valorizam nas roupas são o conforto e o preço da peça, antes mesmo da parte estética. Na última questão pedi sugestões de elementos que eles gostariam de ver na coleção e, dentre várias respostas, as mais recorrentes foram pedidos por variedade de estampas (indo além do xadrez e do listrado), principalmente em camisas e camisetas, além de pedirem saias masculinas.

Como inspiração escolhi a lenda das Guerreiras Amazonas, que deram nome ao Estado brasileiro que eu nasci. Mas por que Amazonas? A lenda nasceu na Grécia antiga e diz que as amazonas eram filhas do deus Ares (deus da guerra, filho de Zeus) e da ninfa Harmonia (ligada ao culto dos deuses de Samotrácia). Transgressoras, elas eliminaram os homens de sua estrutura política e social, desprezando os valores femininos tradicionais da época. Para conseguir manejar o arco e flecha e as lanças, a lenda sugere que elas comprimiam, queimavam ou cortavam o seio direito quando chegavam à puberdade. Por isso o nome: “a” (prefixo de negação) + “mazós” (peito, em grego), o que pode ser traduzido como mulheres sem peito. Apesar dessa teoria ser bem aceita, não há evidências de que isso ocorria de fato.

Amazona ferida, cópia de Fídias, nos Museus Capitolinos, de Roma.
Amazona ferida, cópia de Fídias, nos Museus Capitolinos, de Roma.

As Amazonas brasileiras, no entanto, aparecem um pouco mais a frente no tempo. Em 1541, o espanhol Francisco Orellana viajou durante 563 dias na expedição “De la Canela y El Dorado” que culminou com o descobrimento do “rio de las Amazonas”. Nessa expedição que veio a descrição feita pelo padre dominicano Gaspar de Carvajal de um povoado habitado apenas por mulheres guerreiras. Feita de pedra, a cidade possuía imensos templos dedicados ao sol repletos de ídolos de ouro e prata, e indicou como localização a foz do rio Nhamundá, próximo ao rio Negro. Os índios nativos conheciam as Amazonas como Icamiabas, que significa “mulheres sem homens” ou “mulheres sem maridos”. Há outra denominação a elas, proveniente do vasto folclore a seu respeito, que as chama de Cunhã-teco-ima, que significa “mulheres à margem da lei” ou “mulheres sem lei“.

A lenda diz que as Icamiabas realizavam anualmente uma festa dedicada à lua, denominada Festa de Iaci. A festa durava alguns dias, durante os quais elas recebiam os índios Guacaris para confraternizar e procriar. Depois do acasalamento, mergulhavam em um lago chamado Iaci-uaruá (Espelho da Lua) e iam buscar no fundo a matéria-prima com que moldavam os muiraquitãs, amuletos de pedra verde, os quais endureciam ao saírem da água. Os índios que se acasalavam com as Icamiabas recebiam de presente o amuleto retirado do rio que, além de os fazerem serem notados onde quer que fossem, acreditava-se que possuiam poderes mágicos e que trazia boa sorte e felicidade. O Muiraquitã apresenta coloração esverdeada por ser comumente feito de jade e possui formas de animais como jacaré, tartaruga, serpente, onça, entre outras, mas é o formato de rã ou sapo o mais popular.

Muiraquitã em forma de rã.
Muiraquitã em forma de rã.

Com essas informações em mãos (que estão extremamente resumidas aqui, já que a versão final do meu TCC ficou com quase 100 páginas), comecei a criar a coleção em si. Primeiro fiz o moodboard, com imagens relacionadas ao tema e que me inspirassem de alguma forma. A partir dele que foram escolhidas a cartela de cores, as estampas e vários outros elementos do projeto.

Moodboard da minha coleção
Moodboard da minha coleção

Com base nos elementos visuais, nas pesquisas de inspiração e no meu público-alvo comecei a desenvolver o produto em si. Gosto de desenhar as peças separadamente e, posteriormente, faço o styling das peças para compor os looks da coleção. Depois de desenhar e redesenhar, editar e selecionar,  finalizei a coleção com oito looks, sendo ao todo dezesseis peças que contemplam ao máximo a diversidade do guarda-roupas masculino.

Depois de fazer tudo a mão passei tudo para o computador, desenhando peça por peça, aplicando as texturas e detalhes como recortes, bolsos, costuras e aviamentos. Combino as roupas em seus respectivos looks e assim obtenho o panorama geral da coleção. Além disso, desenvolvi digitalmente um grafismo básico (utilizado também como estampa) e quatro estampas, além de um detalhe em formato de muiraquitã que seria aplicado em cada peça de duas formas: ou como bordado ou como uma plaquinha de metal costurada.

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Coleção Amazonas completa, com cores, estampas e styling. Em cima – Look 1: Macacão | Look 2: Kilt (saia masculina) + Camisa pólo | Look 3: Calça de moletom + Camiseta com recortes | Look 4: Shorts + Camisa Manga Longa (com martingale) | Em baixo – Look 5: Calça skinny + Camiseta alongada | Look 6: Sunga + Regata + Maxi-cardigã | Look 7: Bermuda Alfaiataria + Camisa Manga Curta | Look 8: Blazer + Bermuda + Camiseta
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As quatro estampas desenvolvidas: onça neon, arara psicodélica, orquídea em chamas e estampado gráfico.

Após essa etapa comecei a finalização da coleção, a etapa em que foi feita a “receita” para a fabricação do produto. Escolhi as matérias-prima, considerando tanto o conforto proporcionado pelos tecidos quanto sua composição, para que deixassem o produto final acessível e atrativo para o cliente. Fiz os desenhos técnicos (desenho detalhado de como seria a peça pronta) e as fichas técnicas (ficha onde vem todas as informações necessárias para a fabricação do produto) de cada uma das peças da coleção.

desenho-técnico-ficha-técnica
Exemplo de desenhos técnicos e fichas técnicas.

No final de tudo fiquei bem feliz com o resultado do trabalho, foi um dos poucos que fiz na faculdade que consigo olhar hoje e ainda assim achar interessante. Levando em consideração os professores que estavam na banca avaliadora e que acompanharam boa parte da minha trajetória na universidade, sei que eles esperavam muito mais de mim, talvez isso explique o nove que eu fiquei como nota final. Para finalizar, deixo uma passagem do livro 101 lições que aprendi na Escola de Moda, de Alfredo Cabrera, que utilizei na conclusão do trabalho:

“Um designer de moda deve ser capaz de criar uma coleção inteira com doze meses de antecedência da estação de moda. Isso exige a capacidade de avaliar holisticamente os acontecimentos sociais mais amplos, as tendências de moda, a evolução das necessidades do consumidor, os orçamentos e o processo necessário para a produção e a entrega. Ao mesmo tempo, um designer tem que imaginar cada item de uma coleção nos mínimos detalhes: desde as proporções e o tecido até a cor específica do fio e o tamanho dos botões.”

02.12.14 #tbt #throwbackthursday #Amazonas #fashiondesign #malefashion

Uma foto publicada por Ianarã Bernardino (@ianarabernardino) em

Fotos: Reprodução

By Ianarã Bernardino

Apaixonado por moda, música e tudo que é novo e interessante. Diretor Criativo, Stylist, & Designer.

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