Desabafo, diversidade e quem inventou o sapatênis?

10 de março de 2017

Sentiram minha falta crianças? Pois voltei com um textinho-desabafo que tenho certeza que muita gente vai se identificar. Na real pensei bastante se deveria escrever sobre o assunto, sempre tenho a nóia de que ninguém vai ler. Por isso pedi um sinal do Universo pra ter certeza que era relevante escrever sobre isso. Ele foi ligeirinho e me deu na forma desse post incrível da minha amiga Roberta Maia, vai lá ler que eu espero. 😉

Que somos beeem incoerentes não é novidade nenhuma, mas e quando a incoerência alheia começa a afetar a sua vida? Explico: esses dias sai pra resolver umas coisas e, como todo mundo que me segue há um tempo nas redes sociais sabe, eu gosto de me vestir bem diferentão. Ok, eu fui de jeans, tênis, camiseta e suspensórios por um motivo muito simples: perdi meu cinto e não queria ficar com as calças caindo. Quem me conhece sabe que sou bem de bowie e tô nem ai pro que pensam de mim, mas chegou um nível que eu já estava me sentindo fisicamente mal e eu só queria voltar pra casa.

O look da discórdia

Não sei se você acredita em energias e afins, mas eu acredito muito, e eu fiquei esgotado nesse dia. Era cada olhar de estranhamento, de desprezo, de nojo, cada rajada de energia negativa que até o mais forte dos seres humanos, eu garanto, não aguentaria. Passei uns dois dias trancado em casa, saindo só pra ir malhar, com um misto de medo e nojo das pessoas, extremamente exausto, me sentindo o cocô do cavalo do bandido do filme mais podre do cinema.

Durante esses dias refleti bastante: em meio a uma moda de dizer que temos que ser sermos nós mesmos, termos estilo próprio, personalidade, será mesmo que estamos preparados pra lidar com o modo de vestir do nosso coleguinha? Vou até um pouco além: será que estamos preparados para lidar com o modo de vida do nosso das outras pessoas? Será que temos maturidade pra viver nossa vida e deixar o outro viver a dele em paz? Será que toda essas vibes inclusivas estão realmente mudando alguma coisa na cabeça das pessoas?

Diversidade é tão linda em campanha publicitária, né não?

Cada dia fica mais claro pra mim que não, né? Vide o recente caso da travesti Dandara, espancada e morta no Ceará por simplesmente assumir quem ela era. Quantas pessoas levantaram quando Dandara sentou ao lado delas no ônibus? Quantas pessoas olharam com nojo para ela quando ela passou em algum lugar? Quantas pessoas gritaram ou soltaram piadinhas pra ela na rua? Pois é, eu que não sou Dandara já vivi isso inúmeras vezes, imagina quantas ela viveu.

Voltando pras modas, na prática ainda somos (e buscamos ser) aquele exército de clones que eu falei nesse outro post. Divididos em algumas categorias, mas ainda sim clones. Seja o playboy da polo com sua loira do franjão do lado, seja a bicha heteronormativa “discreta e fora do meio” que tá todo final de semana na balada gay, sejam os desconstruidões de cabelo colorido, piercings, celular pra fazer foto artística na mão e o discurso lacrador na ponta da língua… enfim, não importa! Andar em cada um dos ambientes frequentados por esses tipos é andar em um núcleo de clones, com suas dores e suas delícias (alguns com mais, alguns com menos).

A gente é muito foda, super estiloso e bastante diversificado, né não? #contémironia

Reproduzimos o discurso da diversidade e da personalidade porque é bonito, é cool, é tendência, mas no fundo, no fundo meeesmo queremos todos fazer parte do clubinho e sermos iguais (com raríssimas exceções, claro). Será que um dia chegaremos ao ponto que curaremos nossa síndrome de Dolly e iremos ver o coleguinha usando chapéu e suspensórios e deixá-lo em paz, sem julgamentos e olhares tortos? Às vezes me sinto até um disco furado falando sobre isso pela enésima vez, mas enquanto pessoas morrem por serem quem são, esse sempre será um assunto pertinente.

E eu cansei, sério. Cansei real oficial. Não é a toa que escrevi esse desabafo de uma vez só. E enquanto não nos curamos da nossa síndrome, vou pesando se vale mais a pena continuar peitando a sociedade potiguar e permanecer usando o que eu bem entender, se eu viro um recluso e fico trancado até poder juntar minhas brusinha e sair daqui de vez ou se eu jogo a toalha, me rendo e começo a aderir ao visual polo (Ralph Lauren ou Lacoste, s’il vous plaît!), calça jeans com lavagem cafona e sapatênis horrendo. Se ainda fosse uma escolha pessoal, que refletisse a personalidade do sujeito tudo bem, mas como não é… Aliás, quem botou um sapato e um tênis pra cruzar deveria ser preso por essa aberração, viu? Enfim… isso já é assunto pra outro post. 🙂

Fotos: Reprodução

By Ianarã Bernardino

Apaixonado por moda, música e tudo que é novo e interessante. Diretor Criativo, Stylist, & Designer.

5 Comments

  1. Responder

    Nary

    Natal é uma cidade horrenda mesmo né? A pessoa põe um suspensório e as pessoas já nooooossa.
    Eu acho você uma pessoa super autêntica maravilhosa. Não se renda :*

    1. Responder

      Ianarã Bernardino

      Tentando não me render, mas é difííícil…

      Obrigado pelo apoio ❤

  2. Responder

    Ena

    Ser autentico incomoda, o recalque do povo vem a tona.

    1. Responder

      Ianarã Bernardino

      Com certeza! Mas fazer o que né… Aprender a lidar com o ônus e o bônus de ser autêntico. 🙂

  3. Responder

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