Eu fui longe demais

Eu fui longe demais. Por mais merda que minha vida estivesse, eu tinha uma casa, tinha meus gatos, meus amigos, tinha uma perspectiva de que, em algum momento, algo fosse dar certo. Mesmo que, no fundo, soubesse que não daria, já que a Cidade do Sol é a província que não consagra nem desconsagra ninguém (como dizia Câmara Cascudo).

Eu fui longe demais. Estava cansado de mendigar trabalho, de implorar por oportunidades para conhecidos, desconhecidos e até amigos que, no fim das contas, nem eram tão amigos assim. Cansei de me submeter a freelas e vagas temporárias por valores abusivos. Trabalhos que não tinham nada a ver com meus objetivos futuros. Tudo para não passar nem deixar meus gatos passando fome. Me sentia explorado e desvalorizado. Sentia que falava russo em um lugar que todos só entendiam alemão.

Eu fui longe demais. Queria ir além, queria me livrar das amarras e das limitações, queria ver todo esse talento e esse potencial que muita gente diz que eu tenho na prática, sentir que eu tenho valor de verdade. Porque em dez anos não vi nada disso, não senti nada disso. Não consegui expressar nada disso. Não tinha mais forças de tentar. Natal não era mais o meu lugar. Aliás, Natal nunca foi o meu lugar.

Eu fui longe demais. Destruí o que havia construído por dez anos para ir atrás de uma possibilidade. De algo que, de certa forma, as pessoas ao meu redor acreditavam mais do que eu. Tentei ir o mais rápido possível para não desistir no meio do caminho, não ter Síndrome de Estocolmo pela capital do Rio Grande do Norte. Deu medo, mas fui com medo mesmo. Eu não podia ficar, eu tive que ir embora.

Eu fui longe demais. 4 de julho. 9:20h da manhã. Cheguei em São Paulo com muito peso na bagagem (afinal temos que manter o visual, não é mesmo?) e sem nenhum peso de expectativas, afinal já havia destruído tudo no processo da mudança. Destruí ilusões, destruí até quem eu acreditava ser. Destruí tudo para poder vir leve, vir livre para alçar vôos mais altos, para finalmente ir além da gaiola.

Eu fui longe demais. Fui até o ponto em que sou obrigado a começar a reconstrução. Renovação, revolução. Manter a cabeça erguida e seguir em frente. Lamber as feridas do passado, cicatrizá-las e estar pronto para o que vier a partir de agora. Cair e levantar. Já estive de joelhos por dez anos, não consigo mais ficar inerte, levando chibatadas sem reagir. Agora é o tempo da cura.

Eu fui longe demais. Fui em direção ao desconhecido. Me joguei sem perspectiva nenhuma. Fui me perder para me encontrar. Fui para me curar. Fui para ser a minha própria cura. Fui por amor ao pouco que restava dos meus sonhos destruídos e das minhas (des)esperanças no futuro. Fui por mim, para mim, pensando em mim.

Eu fui longe demais.

Foto: gaelx | Flickr

Post Author
Ianarã Bernardino
Apaixonado por moda, música e tudo que é novo e interessante. Diretor Criativo, Stylist, & Designer.

Comments 3

  1. Ens
    jul 20, 2017 Reply

    Te amo. Texto lindo, não é fácil o recomeço eu sei disso e muito bem! Hoje sei que tudo valeu a pena. Beijos

  2. Nary
    jul 20, 2017 Reply

    Brilhe bem muito aí em SP! <3 Desejo todo sucesso do mundo pra tu pq vc eh foda :*

  3. Sobre Tempo, Moda & Escrita – O Novo Preto
    set 6, 2017 Reply

    […] meio de mudanças tão profundas não só na minha vida mas no mundo inteiro, é importantíssimo saber o que faz os seus olhos brilharem. Por quê? […]

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