Recado dado: alta-costura relembra a moda quem é a dona da casa

AAAAAAAA! Meu primeiro texto aqui. Ansioso? Talvez.
Enfim, vamos ao que interessa.

Fim de janeiro e sob o céu cinza de um inverno francês acaba a semana de haute couture na cidade da moda. A eterna Paris cosmopolita nos entrega uma semana monstruosa em técnica, conceito e estética, que aclamada, entre o sonho e a realidade, fantasia e desejo deixa claro a que veio, com toda finesse possível: se consolidar no topo da pirâmide de modo isolado, a quilômetros de distância de qualquer outra moda que se é produzida. É a vanguarda por excelência, a direção das coisas, como nunca deixou de ser.

Este texto pode ser meio audacioso queridos leitores – isso é comum quando estou escrevendo rs – mas, eu tenho uma teoria, e para entendermos melhor a proporção desse ciclo de alta costura para a moda neste momento, precisamos pintar o cenário completo. Voltemos muitos meses atrás….

É o ápice do streetwear. Todo mundo só fala disso, e o ar fresh que a moda tanto precisa parece vir de nomes como Balenciaga, Gucci, Vetements, Supreme e outras que alimentam a tendência do ugly fashion e invocam as hypebeasts peculiares no cenário mundial ao elevar o street e maxi oitentista a máxima potência. Assistimos de camarote – não tão confortavelmente kkk – o street invadir a moda de luxo de uma forma voraz, quase louca, com styling cada vez mais louco.

Cada vez mais aclamado, o overstreet bateu a porta da alta costura, e a resposta foi um grande “calma aí meu amor!”, com Demna Gvasalia fracassando ao tentar emplacar um desfile da Vetements debaixo de um viaduto em pleno primeiro dia da semana de costura ainda em meados de 2018. E logo depois, a Supreme e o hype esfriando em declínio. Resquícios do hype street ainda insistiam em se proliferar, mas agora, menos e se mesclando ao sportswear. O nome disso? Athleisure. Mais uma que chegou, tomou conta, mas nada como o “boom” que foi o ugly fashion, seus daddy’s shoes, bomber jackets e o excesso de seus acessórios.

Paralelo a isso, o mundo da haute couture passava por suas mudanças. Algumas danças de cadeira aqui acolá, e a soma de fatores que já anunciavam uma renovação na moda, um novo ciclo e, um “au revoir” para aquela tendência dominante. Era hora de baixar o volume. Bow down bitches! E o que aconteceu? Givenchy entregando um desfile SUPER glamouroso e tradicional sob o comando da inglesa Claire Waight Keller, Gaultier fazendo também o tradicional bem humorado a sua maneira – as always rs -, Pierpaolo dando um show de colorismo e volumes na Valentino, e Galliano alçando um voo de vanguarda na Margiela aliado a Iris Van Herpen e Viktor & Rolf que não largam o posto da inovação. A alta costura esquentou seus motores para virar a mesa e ditar a tendência, pegou o que achou útil e repensou.

Isso continua em 2019.

Nessa temporada primavera/verão, a couture entrega uma semana memorável e com um ar fresh de quem está no topo. Não só isso, como o trabalho de atelier cada vez mais absurdo feito em Paris. Aqui destaco Chanel e Christian Dior. Mesmo sem Lagerfeld aparecendo, a Chanel entrega um desfile com leveza e técnica pesadíssima que inclui flores naturais embebidas em resina aplicadas nos looks, e Dior que mesmo sendo boring em opiniões afora mostra um trabalho de atelier de aplaudir de pé com tantas transparências e estruturas à mostra que deixam claro o esmero em cada peça, uma preciosidade.

Some a isso marcas questionando o contemporâneo, como Viktor & Rolf e Martin Margiela. Iris van Herpen que tá na ponta quando o assunto é tecnologia e inovação, Givenchy e Elie Saab de uma new finesse pra essa temporada, e o desfile absolutamente apoteótico da Valentino. É uma semana forte, imponente como se espera da alta costura que aparece renovada e disposta a refletir o contemporâneo através da moda e que tá longe de abrir mão do posto de vanguarda.

Maquiagem incrível do desfile da Valentino Couture Spring 2019

É de se esperar, uma vez que, muitas marcas estão investindo apenas na linha couture. Schiaparelli e Gaultier são exemplos disso. “Novatas” também estão se associando ao time, como a Balmain por exemplo. Oh, why? Valor de marca. Estar nesse time de marcas preciosas ainda é expressivo para as vendas de itens secundários. O desfile se trata de um megaevento espetacularizado usado hoje principalmente como ferramenta de marketing para fortalecer a marca e gerar desejo no cliente, que assim como eu, quer ao menos o perfume da marca rs. Quer forma melhor que garantindo o efeito UAU? #partiucompraroperfume #haha

Uma coisa é fato: os conglomerados multi-milionários que sustentam essas marcas devem está orgulhosos de seus criadores e a disputa vai ser grande com base nessa temporada viu? Ótimo, porque sem se prender a pressão da venda da peça como no prêt-à-porter, conseguimos chegar mais próximo da moda pura, do imaginário do criador, da técnica que emprega artesãos com conhecimento centenários, além do deleite visual e dos questionamentos que levantam reflexões que são geradas, sobre o humano, o meio, os artefatos, a capacidade de experimentação e claro, o avant-garde, sendo assim altamente relevante para a moda como um todo, em todas os seus desdobramentos.

Claro, além do efeito OMG! UAU! feat WTF! This is haute couture baby, é como a coisa deve ser. Agora um questionamento: será que finalmente voltaremos a um efeito prioritariamente trickle-down? Enfim, meio que não importa, o hibridismo é fantástico e cada ciclo é uma maneira de se surpreender com a moda. E para mim, para nós, de certo, é empolgante ver a couture respirando dessa forma tão forte e plena. Eu amo, e já quero mais.

Tchau básico de Zuhair Murad Couture Spring 2019

Imagens: Reprodução
Em destaque: Valentino Couture Spring 2019

Post Author
Marcos Paulo
Designer editorial e de moda. Ama uma viagem perdida rs, adora programas inesperados e vive de questionar. Típico virginiano chato, é dócil na maioria do tempo, e tem queda por gentilezas em geral.

Comments 1

  1. RAFAEL
    jan 31, 2019 Reply

    ADOREI O TEXTO. JÁ ESTOU NA EXPECTATIVA DOS PRÓXIMOS.

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