Nada compra a sua (nem a minha) paz

Posso falar um pouquinho sobre minha vida pessoal?

Não sou de dar muitos detalhes sobre minha vida aqui, vocês sabem. E quando falo sobre ela tento ser meio conceitual ou misterioso (tipo esse post aqui), mas hoje vou fazer diferente. Serei bem direto e sem rodeios. Vem comeeego! (#SddsKatylene)

Quando vim morar em São Paulo eu havia terminado um relacionamento/casamento de quase cinco anos, portanto não queria maiores envolvimentos com ninguém. Sempre fui bem claro e honesto quanto a isso com todo mundo que me relacionei nesses quase dois anos que estou aqui. Inclusive com esse rapaz que vou chamar de Yves. E o tal Yves aceitou ficar na minha vida nessas condições. Eu era livre pra ficar com outras pessoas enquanto estávamos juntos, e ele também. Tudo combinado, às claras e muito bem conversado.

Não preciso de relacionamentos agora, ok?

Yves, no entanto, sempre se mostrou extremamente carente. E ele sempre quis engatar algo fixo comigo. Por causa disso tentei terminar com ele algumas vezes. Sentia que não correspondia às expectativas dele – o tal do relacionamento sério – então preferia que fossemos amigos. Nas duas primeiras tentativas de término Yves tentou cometer suicídio. Sim, ele tentou se matar por minha causa. E eu, me sentindo extremamente culpado (e gostando muito dele) acabava voltando atrás. Na terceira vez ele chegou ao ponto de ameaçar não apresentar o próprio TCC (que ele passou meses preparando) se eu não fosse assistir a banca dele.

Pra compensar as brigas e tentativas de término Yves me enchia de presentes. Casacos de pele fake? Sim! Bolsa de tachinhas e correntes? Claro! Jantar em um italiano incrível em Pinheiros? Agora! Livros de moda direto de Londres? Já é! Creeper da À La Garçonne? Pra já! E assim eu fui me deixando envolver. Afinal quem não iria gostar de ser mimado desse jeito? Ainda mais se for por alguém que você gosta?

E as coisas ficaram mais sérias, e eu ganhando mais presentes, me sentindo cada dia mais errado no rolê até que…

Aos poucos fui tentando me afastar do Yves, tentar fazer com que a relação fosse esfriando e se tornando naturalmente em uma amizade. Era a única forma que via de sair da situação sem causar problemas para ambos. Comecei a recusar os presentes e as saídas. Comecei a ver mais outras pessoas. Acabei conhecendo algumas que começaram a me interessar mais que o Yves. Afinal, mesmo com presentes e mimos, isso não é o suficiente pra sustentar uma relação. Sempre sentia que ele estava tentando me comprar, sabe?

Como você pode fazer isso comigo?

O Yves é bem mais novo que eu, inexperiente e muito imaturo. Além de ser mimado pelos pais, que o tratam como se ele tivesse 8 anos e fosse feito de vidro. E ele fazia todas as manobras possíveis pra me manter por perto, financeiramente e emocionalmente. Isso foi me sufocando, me deixando cada vez mais miserável até o ponto que eu não aguentei mais.

Nós estávamos há umas semanas sem nos encontrar e ele insistia em me ver logo. Decidi que seria ali, o ponto final. Eu queria apenas parar de me envolver romanticamente com ele, na minha inocência eu achava que conseguiria manter uma amizade com Yves. Puro engano.

Então o dia do encontro chegou.

Eu expus tudo que eu pensava, tentei ser o mais honesto possível. Disse que eu gostava muito dele, mas que pra mim não rolava ter envolvimento amoroso com ele, que poderíamos ser amigos. Que eu não conseguiria suprir as carências dele, e isso estava nos machucando e desgastando nossa relação. Vocês podem imaginar o que aconteceu depois não é?

Ele surtou. Disse que eu era oportunista, que estava usando e me aproveitando dele esse tempo todo. Que eu não tinha o direito de terminar com ele depois de tudo o que ele fez por mim. Então ele começou a ficar violento. Como eu estava próximo ao Shopping Ibirapuera, fui em direção ao shopping e ele veio atrás. Disse que ia ligar pra polícia se ele continuasse me perseguindo, ele avançou em mim e tentou pegar meu celular, dizendo que ia me quebrar na porrada. Eu corri pra dentro do shopping, e ele só parou de me seguir quando acionei a segurança do shopping e eles disseram que chamariam a polícia para contê-lo.

O pior é que eu realmente pensava que ele era diferente…

E vocês acham que acabou aí? Calma que tem mais.

Quando voltei pra casa nesse mesmo dia recebo uma mensagem dele dizendo que estava na porta do meu prédio e que ele queria de volta TODOS OS PRESENTES que ele me deu. Tipo, absolutamente todos, TUDO. Sapatos, casacos, camisetas, meias, livros, miniaturas, até um par de brincos. Eu fiquei sem acreditar que isso estava realmente acontecendo. Respondi que não iria descer, que ele deveria ir pra casa, tomar os remédios dele (para ansiedade e depressão) e tentar se acalmar, que depois nós conversaríamos de novo.

E ele foi pra casa. E meia hora depois voltou com os pais. Sim, ele voltou para tentar me intimidar e pegar todas as coisas que ele havia me dado e, agora, exigir que eu apagasse todas as fotos do meu Instagram que contivessem algum dos presentes que ele me deu.

Eu enchi duas caixas com tudo, absolutamente tudo que ele me deu nesses meses juntos e devolvi. Devolvi para comprar minha paz de volta. Devolvi porque nunca estive com ele pelos presentes. Devolvi porque presente nenhum compra o que eu sentia. Devolvi para confirmar o que eu sentia: ele me presentear era um investimento, como eu não dei o retorno esperado (o relacionamento sério), ele queria o investimento de volta. Simples assim.

E posso ser honesto?

Apesar de sentir falta de algumas das coisas que ele me deu e, principalmente, sentir muita falta dele, eu não me arrependo de nada. Na real estou me sentindo tão leve como há meses não me sentia. Me sinto sem culpa nenhuma. Sem estar traindo as expectativas e sentimentos de ninguém, mesmo que racionalmente eu soubesse que não estava. Não sinto mais o peso de ter que estar sempre me justificando, sempre dando atenção, sempre presente e disponível pra ele. Cheguei a ponto de evitar fazer certas coisas e fazer outras sem vontade somente para não desapontá-lo, afinal ele me enchia de presentes, então em tese ele se importava comigo.

Talvez esse tenha sido o mais próximo que eu cheguei de um relacionamento abusivo. E não pensem que foi fácil pra essa ficha cair. Não contei tudo isso aqui para me fazer de vítima nem nada, porque quem se permitiu entrar (e ficar mais de um ano!) nessa situação fui eu. Resolvi contar isso aqui para deixar um pequeno conselho: ninguém, nenhum presente, nenhuma viagem, nenhum mimo, absolutamente NADA vale a minha (e nem a sua sua) paz. Além disso, nunca se culpe por cair numa dessas, afinal não conhecemos totalmente aquele ser que se apresenta maravilhoso pra gente. Se rolar culpa, pega isso e transforma em força pra deixar essa situação pra trás.

Pra finalizar…

Espero nunca mais passar por isso e que ninguém passe por nada próximo ao que passei. Ah, e quanto as fotos que estão no meu Instagram com os presentes dele eu decidi por não apagar. Inclusive essa que está aí em cima no post é uma dessas. São minhas fotos, são parte da minha história, não é verdade? E se achar ruim, faço minhas as palavras de Nina BoNina Brown:

Me processa bebê!
Post Author
Ianarã Bernardino
Ataco de Diretor Criativo, Designer & DJ. Também ataco de astrólogo (pros amigos) e de master chef (quando tô de bom humor). :)

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