Diário de Viagem | Europa por MP

Caro leitor, este é um texto longo. Você precisará de mais de cinco minutos para lê-lo. E não, ele não é sobre moda, é a narrativa de uma experiência. Convido você a pegar uma bebida e relaxar antes de começar a ler, e se até aqui ainda estiver interessado, fico feliz, aproveite a viagem.

Estava frio e as ruas de Paris nunca me pareceram tão bonitas, ao menos não pelas fotografias vistas pelo Google Imagens. Era início de noite e seduzido pelo charme de vários penduricalhos em expositores, estava em uma banquinha de souvenirs próxima a praça do Trocadero. Lembro de ter comprado várias coisas, algumas inúteis talvez.

Foi com pouquíssimos euros no bolso e um moletom listrado que vi ela acender. Acima de mim, por trás da banquinha que tinha me levado alguns dos meus poucos euros. Estava lindo. E me sentia realizado, era uma das coisas mais belas que já vi na vida. Impressionante porque já tinha passado por muitos destinos até então, e nenhum me surtiu tanto impacto. Pude entender naquele instante, toda demasia em relatos e produtos que estampam a Torre Eiffel, na minha mente agora, tudo verdade.

Era com o mesmo encantamento – ou quase – que estava meio dormente na poltrona do aeroporto sentado de frente para o portão de embarque. Minha primeira viagem internacional e já podia ouvir pessoas conversando em outras línguas com destino a Portugal. Alguns consideram a coisa como a realização de um sonho, mas isso ainda é muito abstrato para mim, não vejo dessa forma. O que importa é que foram momentos marcantes. Inclusive a escala de OITO horas de duração no aeroporto de Lisboa, que foi razoável nas quatro primeiras horas, e depois, uma dosagem forte de tédio regada a frappuccinos e pastéis de belém.

Desembarco em Frankfurt – finalmente – próximo da meia noite junto com minhas malas e minha tia e sobrinha, companheiras de turismo dessa viagem. E foi nessa cidade aconchegante e de clima ameno que pude apreciar coisas que sempre admirei desde a minha entrada no curso de design: a arquitetura e o design alemão. Junto a isso, me apaixonar pelo povo mais gentil, educado e hospitaleiro que conheci durante todas as paradas da minha viagem. Era inverno e a temperatura variava entre 4 e 11 graus, e eu estava super confortável naquelas ruas limpíssimas com minhas luvas, casaco e botas, quase sempre segurando uma sidra de maçã, bebida tradicional que viciei, e escrevendo isso, salivo ao lembrar.   

Entre museus, centros comerciais, igrejas colossais e outros pontos turísticos, uma cerveja aqui e outra ali, logicamente enchi a cara. Afinal, estava na Alemanha, terra da cerveja, da salsicha e tudo que você possa imaginar feito com batata. A comida gordurosa, em geral, é muito boa, a malha urbana bem resolvida – passam metrô de 5 em 5 minutos no máximo – e o custo de vida bem baixo se comparado ao Brasil, ou até mesmo outros países como a França. É muito bom lembrar em como era bom caminhar pelo Mankai às margens do Meno, e mesmo com todo frio, encontrar praças lindas e museus para conhecer.

Foi lá também, que tive momentos marcantes dentro de museus, como a exposição da Frankfurt Moderna com um setor todo dedicado a Dieter Rams (designer alemão), e diversos outros expoentes do design moderno, da fotografia, e das artes decorativas. Para quem passa grande parte da sua juventude estudando e vendo fotos em livros, se deparar com o artefato em si, preservado daquela forma, é algo que move, que faz as coisas terem sentido, e de alguma forma te impulsiona, te inspira. Assim como a visão da cidade ao subir a ponte de ferro com seus inúmeros cadeados apaixonados.

Eu lembro de uma Frankfurt que me deixou impressionado, que me acolheu e fez eu me sentir bem-vindo, como se estar na terra alheia fosse o mesmo que estar em casa. Não posso me estender tanto, isso é um blog, não um livro, e ainda temos diversas paradas. Lembro de voltar do bar de madrugada correndo nas ruas da cidade junto com uma companhia que conheci no bar, bêbado, meio atrasado e sem passagem. Corria e ao cruzar com o símbolo do euro, de frente ao banco central, parei, fiz um clique, e a brisa fria batendo contra meu corpo e a felicidade que senti naquele momento, correndo para chegar no hotel, fazer as malas e deixar Frankfurt, é algo que sempre vou lembrar com carinho.

Berlim era gigantesca se comparada a Frankfurt, ou pelo menos foi a minha impressão dela. Acontece que tudo era muito maior e a loucura de uma cidade mais fria, jovem e cosmopolita pulsava na minha mente enquanto andava pelos metrôs. Sou rato de bueiro, adoro metrô, então não esperem muitos relatos de ônibus. Da saída da galeria, uma Alexanderplatz tomada de turistas, comerciantes e pombos, muitos pombos. Era meu primeiro dia na cidade e já estava com uma cerveja na mão, bebendo em praça pública. Vi a gigante torre de TV, registrei, entrei em algumas lojas e saí andando, observando a arquitetura da antiga prefeitura, e no seu interior, suas esculturas.

Eu nunca andei tanto. Na catedral de Berlim, vi uma abóbada que provavelmente nunca vou esquecer, muitos detalhes em ouro, além de criptas e uma visão de 360 graus da cidade do topo da catedral. Anoiteceu, e andei até o portão de Brandemburgo para ver o primeiro pôr do sol marcante, gigante e lindo sobre um cidadão brasileiro cansado com os pés doídos, com fome, mas que obviamente tirou várias fotos. Depois, a academia de arte, e finalmente, a janta. Cerveja e salsicha. Claro, Alemanha.

Meu encontro com as lágrimas só vieram no museu de artes decorativas, um dia depois, onde havia uma exposição grande de bijous da Christian Dior, e um acervo de moda considerável. As lágrimas rolaram pelo meu rosto ao me perceber de frente a Chanel pela própria Gabrielle, Madame Grès, Versace, Yves Saint Laurent, Jean Paul Gaultier, Schiaparelli e diversos outros. Eu tinha sete anos quando me apaixonei pela moda folheando revistas Manequim e Marie Claire que eram da minha mãe. Finalmente o menino de sete anos de idade realizava o sonho de estar ao menos próximo de uma daquelas peças. Várias delas. Me senti tão vitorioso quanto ao encontrar a Vitória no meio do Tiergarten trêmulo de frio.

Amstel era o nome do rio que o barco cruzava. Eu estava dentro, escutando as informações em holandês e inglês. Observando as casas tortas e coloridas datadas de 1600 que fazem a paisagem de Amsterdam. Sim, eu havia deixado a Alemanha para trás de ônibus, cultivando boas lembranças e levando uma garrafa da cerveja da noite anterior. Charmosa e cheia de museus absurdos, a cidade holandesa tem o maior acervo do mundo de Van Gogh, e um ar libertador, a sensação que tive algumas vezes foi que eu poderia fazer qualquer coisa. Certamente uma ilusão, com base no custo das coisas, mas é bom se sentir assim ao pegar o trem e ver o sol do fim de tarde transpassar o telhado das casas que ficam de frente ao píer e entrar pela janela do trem, até tocar as águas do Amstel e sumir no verde profundo do rio que suspende algumas casas.

Manhã sob o solo belga e aqui estou, me empanturrando de waffles cobertos de xarope e tomando chocolate quente. Era o primeiro dia de uma longa estadia na Antuérpia com direito a um dia em Bruxelas. Lembro de no dia anterior ter ficado assustado com a colossal estação central e todas as lojas de diamante ao seu redor. As vitrines brilhavam de forma absurda com aquela quantidade enorme de pedras preciosas, nunca vi tantas joalherias juntas. Eu saí, me deparei com o ar frio e um sol meramente decorativo faziam parte da paisagem da terra natal do meu ídolo da moda, Martin Margiela.

Desapontado fiquei, não com a cidade, mas com o seu principal museu de moda que estava fechado para reforma. Não pude ver muitas peças de designers belgas, mas respirava a cidade do Antwerp Six, e de certa forma entendi a relação de crescer ali com o design das peças do Margiela e da Ann Demeulemeester. E claro, fui a outros museus, como o DIVA (ironicamente, o museu do diamante). Existe algo de especial, de vanguardista na paisagem da Antuérpia, que é muito moderna e prática, apesar da sua arquitetura centenária. De frente a catedral da cidade, pensei “Margiela deve ter sido muito feliz aqui”. Me senti abraçado pela cidade enquanto comia o merecidamente famoso chocolate belga…

Mais fria e gigantesca, Bruxelas tem um francês incompreensível e waffles deliciosos. Me senti extremamente frustrado por nada entender depois de dois anos de curso de francês. Mais tarde, enquanto uma variedade de cervejas me consolava, descobriria que era apenas sotaque. Também me emocionaria novamente ao ir ao museu de moda e finalmente ver Ann, Margiela e Beirendonck. Além de passar na loja do Dries Van Noten. Foi ótimo, mas não como voltar a Antuérpia e terminar a noite em um bar, jogando dardos e dançando com meus novos colegas belgas. Nessa noite, essa cama de hotel só me viu pela manhã, eu estava exausto depois da euforia do bar, rindo meio bêbado lembrando das pessoas caindo, ou cantando e gritando em cima do balcão do bar enquanto o barman tentava rebolar ao som de Anitta. Uma homenagem ao Brasil, graças ao alarde feito pela minha presença entre os gringos. Foi uma noite ótima.

No outro dia eu estava dividido no frio entre a ansiedade de chegar na França e a possibilidade de perder o ônibus por estar no lugar errado. Acreditem, a “rodoviária” da Antuérpia é um descampado. Já poderia imaginar o Sena e toda pompa parisiense antes mesmo de entrar no ônibus, me conscientizando que teria que esquecer as boas cervejas e abrir a carta de vinhos. Nada mal, não é mesmo? E assim fui a última parada, Paris, onde descobri que sim, meu francês era razoável e quase não precisei me comunicar em inglês, e pude ficar em paz com o aprendizado da língua.

A cidade luz, além de ter o famoso clima parisiense – que é real, só ela tem esse clima – tem franceses muito simpáticos, ainda mais quando eles percebem que você está se esforçando para aprender o idioma deles. Uma das coisas mais bonitas que guardo de recordação é essa relação do francês típico com sua língua, e como eles se sentem bem quando não chegamos na terra deles metendo o inglês direto. Feliz com isso, a sonoridade da língua deles é muito boa, e rapidamente me acostumei, diferente de Bruxelas, o francês é limpo e bem claro na maioria das vezes.

Em meio à ruelas parisienses e à galerias lindas, porém extremamente velhas do metrô, subo as escadas e me deleito com a visão da minha primeira atração de uma manhã francesa: o Arco do Triunfo. Muito maior do que eu poderia imaginar, o monumento chama atenção. E com pouco tempo de visitação você entende o orgulho francês do seu povo, e o quanto eles sabem homenagear seus mortos de guerra. É um monumento lindo, com uma paisagem de tirar o fôlego vendo de cima a Champs-Elysées e conseguindo vislumbrar a torre de longe. É simplesmente arrebatador.

Descendo do arco, continuo caminhando pela Champs-Elysées, comendo foies gras e toda comida tradicionalmente francesa possível. A visitação continuou pelo Grand Palais, Petit Palais, Palácio de Versailles, Galeries Lafayette, Museu do Rodin, a ponte Alexandre III, a praça da Concórdia, a Vendôme e todas as suas lojas de luxo – ótima oportunidade para estudar vitrinismo a céu aberto -, e outros pontos muito tradicionais. Nem preciso dizer que em Paris foi onde mais andei, por cima e debaixo da terra, uma vez que a cidade parece ter uma cidade subterrânea formada só de galerias do seu gigantesco metrô.

Dia após dia era impossível não se fascinar pela caótica Paris. Dentro dela, o melhor investimento da minha viagem, o museu do Yves Saint Laurent, que ironicamente visitei um dia após a morte do Karl Lagerfeld, seu maior rival. Lá, onde era o atelier do próprio, é organizado um museu onde é possível sentir o amor que Pierre Bergé tinha pelo seu companheiro. É emocionante como tudo é organizado, e como as peças feitas pelo Yves são gloriosamente bem acabadas, expressivas, com alma. Existe algo dentro delas que fala até você. As lágrimas vieram aos olhos no mini-cinema armado para um filme sobre a história de Pierre e Yves juntos, e mais ainda, quando tive a possibilidade de visitar o atelier desse ícone da moda da forma que ele o deixou. Para os amantes da moda, é de um deleite indescritível pensar que era ali que tudo acontecia, que ali o espirituoso Saint Laurent desenhava, modelava e fazia provas de roupas.

Poderia aqui escrever páginas só sobre esse momento, ou sobre o que foi visitar os aposentos de Maria Antonieta e da corte francesa, ou da sensação de estar tão perto das águas do Rio Sena, da beleza do Tuileries, de finalmente ver a autêntica Monalisa, a barca da Medusa e Joana D’arc no Louvre, e de diversos outros momentos marcantes. Mas esse relato de viagem ficaria muito longo, assim como as longas vielas e ruas de Paris, soturnas, românticas, inebriantes.

Lembro de correr a noite pela iluminada Elysées, pegar o metrô, me embebedar de vinho na cama com os pés cansados comendo uma baguette com queijo. De pedir nos restaurantes pratos típicos franceses e cavar o máximo que podia dessa cultura no pouco tempo que tive contato com ela. Estava frio e as ruas de Paris nunca me pareceram tão bonitas, quando de frente a praça do Trocadero vi a torre acender. Nunca estive tão vivo, tão inspirado, emocionado. Sob os pés da Eiffel, e todos os seu comerciantes falando em várias línguas, me preparava para retornar, revigorado, agora dando adeus à Paris e, mais tarde, à Europa.

E aqui, caro leitor, finalmente acaba meu diário de viagem. Obrigado por vir até aqui, por viajar nesse texto comigo. 😀

Imagens: Marco Paulo | Reprodução

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Marcos Paulo
Designer editorial e de moda. Ama uma viagem perdida rs, adora programas inesperados e vive de questionar. Típico virginiano chato, é dócil na maioria do tempo, e tem queda por gentilezas em geral.

Comments 2

  1. Viviane Fernandes
    maio 13, 2019 Reply

    Que TEXTO 👏👏👏👏👏

  2. Marcos Paulo do Nascimento Pereira
    jul 25, 2019 Reply

    oBRIGADO <3

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