Review | McQueen (2020)

Lançado em 2018 no Reino Unido e após participar de vários festivais de cinema, o documentário McQueen, dirigido por Ian Bonhôte e co-dirigido e escrito por Peter Ettedgui (cujo pai foi um dos primeiros varejistas a vender a marca) finalmente chegou ao Brasil.

Lee. Pisciano do dia 17 de março de 1969, nascido em Lewisham (subúrbio ao sul de Londres). Filho de um taxista e uma professora e cientista social. Alexander. Tão grande quanto Alexandre, se tornou um dos maiores e mais geniais estilistas de todos os tempos. McQueen. Mais novo de seis irmãos, com foco e motivação de dar inveja, devotado às mulheres e ao seu ofício.

N. 13, 1998

The McQueen Tapes

O filme é dividido em cinco “fitas”, ou capítulos, que destacam momentos especiais de sua trajetória, utilizando seus desfiles como marcos de cada uma dessas fases. Apesar de não serem necessariamente os melhores, os shows escolhidos são expressões muito pessoais e icônicas, que ajudam a entender sua vida e seu legado:

  • Jack the Ripper Stalks His Victims, de 1992, desfile de formatura na Central St. Martins, que chamou atenção de várias pessoas envolvidas em moda (inclusive de sua amiga e mentora Isabela Blow). Nesse desfile ele já colocava em suas criações muitos elementos que, na época, não estavam nas passarelas, inclusive a própria inspiração (um serial killer de mulheres);
  • Highland Rape, de 1995, desfile extremamente controverso e que gerou bastante mídia (dentro e fora do mundo fashion) sobre a marca. As modelos entravam na passarela como se tivessem acabado de sofrer um estupro, desorientadas, rasgadas e abatidas. Segundo ele, uma alusão ao que os Ingleses fizeram ao invadirem as terras escocesas de seus antepassados;
  • Search for the Golden Fleece, de 1997, primeira coleção que ele criou quando assumiu a posição de diretor criativo da Givenchy (e começou logo na alta costura!). Inspirado pela história mitológica grega de Jasão e os Argonautas;
  • VOSS, de 2000, um de seus shows mais icônicos e emblemáticos. As modelos andavam desorientadas dentro de uma caixa de vidro (representando um manicômio), parecendo ter sido lobotomizadas. Usando peças que beiravam a alta costura, esse foi estopim para sedimentar sua genialidade e despertar o interesse de grandes investidores do fashion business, com 50% da marca arrematada pelo Gucci Group um ano depois;
  • Plato’s Atlantis, de 2009, o último desfile totalmente assinado por Alexander. Inspirado em um futuro pós-apocalíptico, em que após o derretimento de todo o gelo e a água tomar conta do planeta, tivemos que nos adaptar à natureza para continuar vivos, e não interferir em seus processos (e foi o primeiro livestream de um desfile da história!).
Plato’s Atlantis, 2009

“Ninguém descobriu Alexander McQueen. Alexander McQueen descobriu a si mesmo.”

Focando principalmente no homem por trás do legado, é impossível falar de Alexander sem falar de seu trabalho. Além de mostrar sua ascensão, o documentário McQueen traz muitas imagens de bastidores, gravações caseiras, depoimentos de amigos, familiares e pessoas que conviveram com ele.

Lee era uma dessas pessoas que não só amava seu ofício, ele nasceu para fazer o que fazia. Sua vida era o seu trabalho. Desde que colocou na cabeça que iria viver fazendo o que amava, ele trabalhou incansavelmente. Quando ele não tinha oportunidades, ele as criava, de um jeito ou de outro. Talvez a pessoa que mais acreditava em seu trabalho e em sua visão era ele mesmo.

Admito que senti um pouco de inveja. Sim, ele e “grupinho dos desajustados” que o acompanhava eram as pessoas que eu queria sentar junto no recreio. Não só isso, queria mesmo era poder fazer TUDO juntos, mesmo. Queria ter feito parte desse grupo de pessoas que trabalhavam, conviviam e eram realmente devotadas à criatividade. Fica evidente que Lee tinha plena consciência de que sem sua equipe para dar vida às suas loucuras ele não iria muito longe nesse mercado (nem na vida).

Alexander McQueen dando entrevista para Tim Blanks sobre a coleção Joan, em 1998

“Eu ia ao fundo do meu lado sombrio para tirar esses horrores da minha alma e os colocar na passarela” – Alexander McQueen

Em tempos em que falar de saúde mental não é mais estigmatizado, o filme toma um caráter muito importante. Alexander tinha tanto amor pelo que fazia que beirava a obsessão. Usava suas criações como forma de expressar seus sonhos e exorcizar seus demônios de forma poética. Via beleza onde ninguém a via, enxergava o feio, o estranho e o sombrio de maneira única. E é nesse ponto, quanto mais ele trabalhava e crescia, maiores eram suas conquistas e seu sucesso, maior era sua infelicidade.

A indústria da moda não é para amadores, meus caros. Ela suga impiedosamente o que você tem de melhor e nunca, NUNCA se satisfaz. Para quem fazia duas coleções por ano em 1992 ter que criar em média quatorze coleções (sim, 14!) por ano uma década depois (entre feminino, masculino, acessórios e sua segunda marca, a McQ) deve ter sido extremamente desgastante. Alexander se sentia responsável por cada uma das pessoas que sobreviviam a partir de suas criações. Costureiras, stylists, ajudantes, estagiários… Uma lista de gente que, com o passar dos anos, só crescia. E com grandes poderes temos grandes responsabilidades, não é mesmo?

“A fragilidade da vida… Todos podemos ser descartados muito facilmente. Estamos ali, e então desaparecemos.” – Alexander McQueen

Chegando a trabalhar 12 ou 14 horas por dia, Alexander começou a arrumar válvulas de escape. Sexo e drogas eram formas que ele encontrou de aliviar a pressão que crescia a cada temporada. No início de 2007, já soropositivo e viciado em cocaína, ele teve o primeiro grande baque: Isabella Blow, ícone de estilo, grande amiga e uma de suas maiores incentivadoras e fãs, cometeu suicídio. Em outubro daquele ano, ele se juntou a Philip Treacy (outro protegido de Isabella) e juntos dedicaram a coleção La Dame Bleue à memória de Blow.

Dois anos depois, em 2009, já saturado do mercado, ele planejava (meio brincando, meio sério) cometer suicídio na passarela do que viria a ser sua última coleção. Meses após apresentar Plato’s Atlantis (sem o grand finale), no dia 2 fevereiro de 2010, veio o segundo (e derradeiro) baque: sua mãe morreu de câncer. Sua mãe era sua fortaleza, sua primeira e maior incentivadora e seu refúgio em vida. Enfrentando uma profunda depressão, transtorno de ansiedade e problemas com abuso de remédios e drogas, Lee Alexander McQueen cometeu suicídio no dia 11 de fevereiro de 2010, aos 40 anos.

Mais do que um gênio e um dos maiores designers de moda de todos os tempos, Lee foi também vítima da velocidade e desumanidade da indústria da moda que tanto amava. O mercado, sempre na ânsia pela próxima coleção, pela próxima novidade, pelo novo, nunca satisfeita, sempre focada no que está por vir, foi sugando de Lee todo o prazer e paixão que o fizeram entrar nesse ramo. A mesma indústria que o ajudou a escrever seu nome na História acabou com sua sanidade mental. E o preço que ele pagou foi bem alto: a vida.

Se Coco Chanel libertou as mulheres e Yves Saint Laurent empoderou-as, Alexander McQueen mostrou que há beleza e força em seu lado mais sombrio.

Para assistir o documentário vai lá no site Filmmelier que tem todas as coordenadas.

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Ianarã Bernardino
Ataco de Diretor Criativo, Designer & DJ. Também ataco de astrólogo (pros amigos) e de master chef (quando tô de bom humor). :)

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